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DEMOCRACIA, INSTITUIÇÕES E PARTICIPAÇÃO POLÍTICA

O líder e o espelho: carisma, polarização e eleições no Brasil

Por Mariana de Sá5 de outubro de 2026 • 11 min de leitura
Arte editorial com dois campos políticos refletidos pela mesma figura carismática

Por que projetos políticos tão diferentes dependem da mesma necessidade de transformar pessoas em símbolos?

A cada eleição, o Brasil parece retornar a uma pergunta que nunca foi completamente resolvida: escolhemos projetos políticos ou escolhemos pessoas nas quais depositamos a esperança de que resolvam, quase individualmente, os problemas do país?

As campanhas apresentam propostas, programas, alianças e compromissos. Entretanto, grande parte da disputa política acontece em outro plano. Mais afetivo do que racional, ele é construído por imagens, gestos, frases, memórias e símbolos. O candidato deixa de ser apenas alguém que concorre a um cargo e passa a representar uma ideia de povo, uma experiência de vida e uma determinada visão do Brasil.

Essa transformação não pertence exclusivamente à direita ou à esquerda. Lideranças de campos políticos opostos podem mobilizar valores muito diferentes e defender projetos profundamente distintos, mas recorrer a uma estrutura semelhante: a construção de uma figura carismática capaz de concentrar medos, esperanças, frustrações e desejos coletivos.

Reconhecer essa semelhança não significa afirmar que todos os discursos, governos ou comportamentos são equivalentes. Não são. As consequências políticas de cada projeto precisam ser analisadas concretamente. O ponto é outro: compreender por que, em lados diferentes, tantas pessoas passam a enxergar um líder como alguém insubstituível.

Quando a política ganha um rosto

Max Weber identificou três formas principais de autoridade: a tradicional, baseada nos costumes; a legal, sustentada por normas e instituições; e a carismática, fundada na confiança depositada nas qualidades consideradas extraordinárias de uma pessoa.

A liderança carismática não depende apenas das características pessoais do líder. Ela existe porque um grupo reconhece naquela pessoa algo excepcional: coragem, autenticidade, força, proximidade, capacidade de proteção ou disposição para enfrentar aqueles que são apresentados como responsáveis pelos problemas sociais.

O carisma é uma relação. Ele não está somente em quem lidera, mas também em quem deseja acreditar.

Em períodos de estabilidade, a política institucional pode parecer suficiente. Em momentos de crise econômica, insegurança social, descrença nas instituições ou transformação cultural acelerada, porém, cresce a procura por figuras que ofereçam respostas simples, identidade coletiva e uma sensação de direção.

O líder carismático ocupa esse espaço. Ele não apresenta apenas propostas: promete reorganizar o sentido da realidade. Seus apoiadores não enxergam nele somente um representante, mas alguém que expressa sentimentos que imaginavam não possuir voz pública.

É por isso que críticas dirigidas ao líder muitas vezes são recebidas como ataques pessoais por seus seguidores. Quando alguém se identifica profundamente com uma liderança, questioná-la pode parecer o mesmo que questionar sua inteligência, seus valores, sua história ou seu lugar no mundo.

Dois lados diante do mesmo espelho

A polarização política costuma ser apresentada como uma divisão absoluta entre campos que nada possuem em comum. Cada grupo se percebe como racional e democrático, enquanto descreve o outro como irracional, manipulado ou perigoso.

A realidade é mais complexa.

Em diferentes posições políticas, é possível encontrar discursos que apresentam o próprio líder como a única pessoa capaz de proteger o país. De um lado, ele pode representar a defesa da ordem, da tradição, da segurança ou da liberdade. De outro, pode encarnar a justiça social, a proteção dos mais vulneráveis, a recuperação de direitos ou a resistência democrática.

Os valores mobilizados não são os mesmos. As trajetórias também não. Mas a lógica personalista pode se repetir: sem aquela pessoa, tudo estaria perdido; somente ela possuiria força popular suficiente; qualquer alternativa seria uma traição; toda crítica beneficiaria necessariamente o adversário.

Nesse cenário, a política deixa de ser uma disputa entre projetos e passa a funcionar como uma batalha entre identidades. O eleitor já não precisa apenas concordar com propostas. Espera-se que demonstre lealdade, defenda o líder em todas as circunstâncias e rejeite qualquer informação que possa produzir dúvida.

A crítica interna passa a ser vista como fraqueza. A mudança de opinião é interpretada como falta de caráter. O diálogo com pessoas de outro campo político torna-se suspeito.

A polarização, assim, não organiza somente o voto. Ela reorganiza relações familiares, amizades, ambientes de trabalho e a própria percepção moral que temos das outras pessoas.

O povo como construção política

Ernesto Laclau mostrou que a ideia de “povo” não é uma realidade pronta e homogênea. Ela é construída politicamente quando diferentes insatisfações encontram um símbolo comum capaz de reuni-las.

Um trabalhador preocupado com o desemprego, uma família insatisfeita com os serviços públicos, uma pessoa que teme mudanças culturais e um cidadão indignado com a corrupção podem possuir experiências muito diferentes. Uma liderança carismática consegue organizar essas frustrações em torno de uma narrativa compartilhada.

É nesse momento que o líder deixa de representar apenas um partido e passa a ser apresentado como a própria expressão do povo.

O problema começa quando essa construção exclui todos aqueles que não compartilham a mesma identidade. Se apenas os seguidores do líder forem considerados “o verdadeiro povo”, os adversários deixam de ser cidadãos com os mesmos direitos e passam a ser tratados como obstáculos, inimigos ou ameaças internas.

Chantal Mouffe propõe uma distinção importante entre adversário e inimigo. O adversário é alguém com quem discordamos profundamente, mas cujo direito de participar da democracia reconhecemos. O inimigo, ao contrário, é alguém cuja presença consideramos ilegítima e que desejamos eliminar do espaço político.

Uma democracia pode conviver com conflitos intensos. O que ela não suporta por muito tempo é a transformação de metade da sociedade em inimiga da outra metade.

A política na velocidade das redes

As redes sociais não criaram o personalismo político, mas ampliaram seu alcance e sua intensidade.

A política passou a ser consumida continuamente, misturada a entretenimento, indignação, humor e vida cotidiana. Um vídeo curto, uma frase de efeito ou uma imagem emocional pode circular mais rapidamente do que qualquer programa de governo.

Nesse ambiente, o líder carismático está sempre presente. Ele aparece como personagem de vídeos, memes, transmissões, músicas, montagens e conversas familiares. Sua imagem passa a fazer parte da rotina dos eleitores.

Os algoritmos também favorecem conteúdos que despertam reações intensas. Medo, raiva, esperança e indignação mantêm as pessoas conectadas por mais tempo. Como consequência, posições moderadas, explicações complexas e dúvidas honestas possuem menos visibilidade do que acusações, certezas e conflitos.

A política torna-se uma narrativa permanente de heróis e vilões.

Hannah Arendt compreendia a política como o espaço em que pessoas diferentes aparecem umas diante das outras, falam e constroem um mundo comum. Quando esse espaço é substituído por grupos fechados, nos quais todos repetem as mesmas certezas, a convivência democrática perde sua base.

Passamos a falar muito sobre o outro, mas raramente com o outro.

O carisma é necessariamente ruim?

O carisma não é, por si só, incompatível com a democracia.

Lideranças carismáticas podem ampliar a participação popular, representar grupos historicamente ignorados, criar identificação com a política e mobilizar a sociedade em torno de mudanças importantes. A política não é feita somente de normas e cálculos. Ela também envolve emoções, pertencimento e esperança.

O risco está na ausência de limites.

Uma liderança democrática deve aceitar que seu poder é temporário, que as instituições não existem apenas para confirmar suas decisões e que seus adversários possuem o direito de continuar participando da vida pública.

O líder pode inspirar, mas não deve substituir as instituições. Pode representar demandas populares, mas não pode se apresentar como a única voz legítima da sociedade. Pode criticar decisões de outros poderes, mas não deve considerar válida apenas a regra que o beneficia.

Da mesma forma, os eleitores precisam conservar o direito de apoiar sem obedecer, admirar sem idolatrar e pertencer sem abandonar o julgamento crítico.

A democracia exige uma relação adulta com as lideranças. Nenhum representante deve receber um cheque em branco apenas porque está do “nosso lado”.

O que está em jogo nas eleições

Em períodos eleitorais, é natural que as diferenças políticas se tornem mais visíveis. Eleições existem justamente para que projetos distintos disputem o voto da sociedade.

O problema não é a existência de lados. Também não é a intensidade das convicções. O problema aparece quando a vitória de um campo passa a justificar qualquer comportamento e quando a derrota é considerada legítima apenas se ocorrer com o adversário.

Steven Levitsky e Daniel Ziblatt destacam que a preservação da democracia depende não somente das regras escritas, mas também de práticas de contenção. Isso significa reconhecer que nem tudo que pode ser feito politicamente deve ser feito e que o poder precisa ser exercido com responsabilidade.

Uma eleição democrática não serve para coroar um salvador. Serve para escolher representantes que continuarão submetidos à Constituição, às leis, à fiscalização e à possibilidade de substituição.

O voto não entrega o país a uma pessoa. Concede um mandato limitado.

Essa distinção é fundamental em uma sociedade polarizada. Quando confundimos mandato com propriedade, oposição com sabotagem e crítica com traição, enfraquecemos exatamente aquilo que afirmamos defender.

Recuperar a política para além do líder

Talvez uma das perguntas mais importantes para as eleições seja também uma das mais simples: o que restaria desse projeto político se retirássemos dele o rosto de sua principal liderança?

Existem propostas claras? Há pessoas preparadas para dar continuidade ao trabalho? O grupo respeita as instituições quando é contrariado? Seus apoiadores conseguem reconhecer erros? Existe espaço para divergência interna? O projeto pode sobreviver democraticamente sem depender de uma única pessoa?

Essas perguntas não eliminam o papel das lideranças. Apenas devolvem a elas sua dimensão adequada.

Uma democracia forte não precisa de representantes sem carisma. Precisa de instituições que não dependam da virtude pessoal de quem ocupa o poder. Precisa de cidadãos capazes de avaliar ações, resultados e limites, inclusive quando se trata de alguém em quem votaram.

A maturidade política começa quando deixamos de perguntar apenas quem poderá derrotar o outro lado e passamos a perguntar qual sociedade desejamos construir depois da eleição.

O líder carismático funciona como um espelho. Nele, cada grupo enxerga seus desejos, medos e expectativas. Mas nenhum espelho apresenta toda a realidade.

Antes de escolher quem ocupará o centro da cena, talvez seja necessário olhar para aquilo que permanece ao redor: as instituições, os direitos, as regras democráticas, os problemas concretos e as pessoas que continuarão vivendo juntas quando a campanha terminar.

Uma democracia não se fortalece quando encontra o líder perfeito. Fortalece-se quando aprende a não depender da perfeição de nenhum líder.

Referências e leituras

  • ARENDT, Hannah. A condição humana.
  • LACLAU, Ernesto. A razão populista.
  • LEVITSKY, Steven; ZIBLATT, Daniel. Como as democracias morrem.
  • MOUFFE, Chantal. Sobre o político.
  • WEBER, Max. Economia e sociedade.
  • WEBER, Max. A política como vocação.
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