DEMOSUEMG • DIAMANTINA← Todas as publicações
VIDA ACADÊMICA E PESQUISA

Produtividade acadêmica: a experiência, não o manual

Por Mariana Oliveira de Sá21 de agosto de 2026 • 9 min de leitura
Arte editorial da Ágora DEMOS sobre produtividade acadêmica como experiência, e não como manual

Entre pesquisa, escrita, submissões, recusas, escolhas e recomeços, algumas reflexões sobre o que significa construir uma vida acadêmica possível.

Existe uma quantidade considerável de conteúdo dedicado a ensinar como ser produtivo academicamente. Há métodos para organizar leituras, técnicas para escrever artigos em menos tempo, aplicativos para gerenciar referências, planilhas para acompanhar submissões e rotinas que prometem transformar pesquisa em uma sequência previsível de tarefas. Algumas dessas ferramentas são realmente úteis e muitas delas fazem parte da minha própria organização. Ainda assim, quanto mais tempo passo entre pesquisa, docência, escrita e publicação, menos acredito que produtividade acadêmica possa ser reduzida a uma fórmula.

O que funciona em determinado período deixa de funcionar em outro; aquilo que é possível para uma pessoa pode ser completamente incompatível com a realidade de outra. Por isso, este texto não pretende ensinar como alguém deve produzir. É, antes, uma tentativa de organizar algumas coisas que aprendi fazendo: escrevendo textos que funcionaram e outros que precisaram ser abandonados, acumulando projetos demais, recebendo pareceres, submetendo para revistas inadequadas, recomeçando pesquisas e, principalmente, descobrindo que produzir muito e construir uma trajetória acadêmica consistente não são necessariamente a mesma coisa.

Produtividade acadêmica não é a capacidade de fazer tudo, mas a capacidade de fazer avançar aquilo que importa.

Escolher também é produzir

Talvez o primeiro aprendizado tenha sido justamente compreender que produtividade acadêmica não é a capacidade de fazer tudo, mas a capacidade de fazer avançar aquilo que importa. A universidade oferece permanentemente mais possibilidades do que cabem em uma vida: outro congresso, outra chamada para publicação, outro grupo de pesquisa, outra parceria, outro livro que parece indispensável, outra ideia que poderia se transformar em artigo.

Durante algum tempo, é fácil confundir disponibilidade com oportunidade e imaginar que aproveitar a vida acadêmica significa aceitar o maior número possível dessas possibilidades. O problema é que toda escolha possui um custo. Um novo artigo ocupa horas que poderiam ser destinadas àquele que já estava sendo escrito; um novo projeto disputa atenção com pesquisas anteriores; uma viagem para um evento consome tempo, recursos e energia. Foi nesse sentido que escolher passou a fazer parte do meu entendimento de produtividade. Não apenas escolher o que fazer, mas também aquilo que não farei agora. Algumas oportunidades são excelentes e, ainda assim, precisam receber um “não” porque existem outros compromissos que merecem um “sim” mais inteiro.

Construir uma agenda de pesquisa

Essa mudança também alterou a maneira como passei a pensar a própria pesquisa. Durante muito tempo, imaginava a produção acadêmica quase como uma sucessão de trabalhos independentes: surge um tema, pesquisa-se, escreve-se um artigo, publica-se e começa-se novamente. A experiência mostrou uma dinâmica diferente. Uma boa pergunta raramente termina quando um artigo termina. Ela pode surgir durante uma aula, transformar-se em uma anotação, ganhar alguma forma em um resumo apresentado em evento e, depois das discussões e de novas leituras, amadurecer em um artigo.

Durante esse percurso, uma questão inicialmente lateral pode revelar outro problema de pesquisa e produzir um novo texto. Isso não significa fragmentar artificialmente uma mesma investigação para multiplicar publicações, mas compreender que uma agenda de pesquisa consistente produz desdobramentos intelectuais genuínos. Quando as pesquisas começam a conversar entre si, escrever deixa de significar começar permanentemente do zero. Autores reaparecem sob novas perguntas, conceitos anteriormente utilizados precisam ser revistos, argumentos se sofisticam e a trajetória acadêmica começa a adquirir continuidade.

Escrever antes da perfeição

Também precisei modificar minha relação com a escrita. A expectativa de começar um artigo apenas quando sua estrutura estivesse perfeitamente organizada na cabeça produzia, muitas vezes, o efeito contrário: adiava o momento de escrever. Com o tempo, percebi que parte importante do pensamento acontece justamente durante a escrita. Há argumentos que parecem sólidos até serem colocados no papel; conceitos aparentemente claros revelam ambiguidades quando precisamos explicá-los; referências que pareciam indispensáveis deixam de fazer sentido quando o problema se torna mais preciso.

Hoje, considero muito mais produtivo produzir uma primeira versão imperfeita e trabalhar sobre ela do que esperar indefinidamente pelo texto ideal. Escrever, cortar, reorganizar, acrescentar bibliografia, abandonar um parágrafo de que gostávamos porque ele não serve ao argumento, perceber que uma seção inteira precisa ser refeita e, eventualmente, admitir que a hipótese inicial estava equivocada são atividades constitutivas da pesquisa. Escrever não é apenas comunicar aquilo que já pensamos; muitas vezes, é a forma pela qual descobrimos o que realmente pensamos.

Publicar também exige aprender a submeter

Há, ainda, uma dimensão da produção acadêmica que costuma aparecer menos quando se fala sobre produtividade: publicar exige aprender a submeter. Um artigo não termina quando colocamos o último ponto-final. É preciso compreender onde aquele texto pretende intervir, com quais leitores deseja dialogar e qual periódico possui escopo compatível com sua contribuição. Essa etapa também exige pesquisa. Ler as diretrizes da revista, observar os artigos que ela publica, compreender suas linhas editoriais e adequar a apresentação do manuscrito não são detalhes burocráticos posteriores à produção científica. Fazem parte dela.

Um excelente artigo pode receber um desk reject simplesmente porque foi enviado para um periódico inadequado; outro pode retornar com pareceres difíceis e revelar problemas que não havíamos percebido. A rejeição, portanto, também precisa ser incorporada à experiência acadêmica sem ser transformada automaticamente em julgamento sobre a qualidade de quem escreve. Há pareceres que exigem mudanças importantes, decisões editoriais que mostram que o artigo precisa amadurecer e recusas que apenas indicam que aquele texto precisa encontrar outro interlocutor. Aprender a distinguir essas situações é, para mim, uma forma importante de maturidade acadêmica.

Quando a organização serve ao pensamento

Nesse processo, organização ajuda muito, mas também aprendi que ela possui limites. Planilhas, agendas, gerenciadores de referências, cronogramas e listas de tarefas são instrumentos valiosos quando reduzem o trabalho invisível e liberam espaço mental para pesquisar. Saber quais artigos estão sendo escritos, quais foram submetidos, quais aguardam parecer, quais precisam de revisão e quais chamadas possuem prazo próximo evita desperdício de energia.

Entretanto, organizar a produção não pode substituir a produção. É perfeitamente possível passar horas construindo o sistema ideal para gerenciar uma pesquisa sem efetivamente ler, pensar ou escrever. Por isso, tento lembrar que a função de qualquer método de organização é servir ao trabalho intelectual, e não se transformar em outro trabalho. No fim, nenhuma planilha produz o argumento que ainda não enfrentamos e nenhum aplicativo substitui o tempo necessário para permanecer diante de uma pergunta difícil.

Uma trajetória precisa durar

Talvez o aprendizado mais complexo tenha sido compreender a relação entre produtividade e limite. Existe uma cultura acadêmica que, muitas vezes, transforma exaustão em sinal de comprometimento. Trabalhar permanentemente, responder rapidamente, acumular projetos, publicar constantemente e permanecer sempre disponível podem parecer evidências de sucesso. Mas uma rotina que só funciona quando estamos continuamente cansados não é uma rotina produtiva; é uma rotina insustentável.

Isso não significa imaginar uma vida acadêmica perfeitamente equilibrada. Existem períodos intensos, prazos que coincidem, semanas em que será necessário trabalhar mais e momentos em que determinadas prioridades ocuparão quase toda a atenção. A diferença está em não transformar esses momentos excepcionais em método permanente. Descansar, interromper, adiar e reconhecer que alguma coisa não cabe também podem ser decisões intelectualmente responsáveis. Uma trajetória acadêmica precisa durar mais do que o próximo prazo.

Constância tem sido mais importante do que intensidade.

É por isso que este texto não termina com dez regras. Talvez algumas das coisas que funcionam hoje deixem de funcionar daqui a alguns anos, e espero ter abertura suficiente para modificá-las. O que permanece, por enquanto, é uma compreensão menos quantitativa da produtividade. Constância tem sido mais importante do que intensidade; uma agenda de pesquisa, mais fértil do que uma coleção de textos desconectados; escrever antes da perfeição, mais produtivo do que esperar por ela; escolher cuidadosamente onde investir tempo, mais importante do que aceitar todas as oportunidades. E, sobretudo, tornou-se fundamental compreender que nenhuma publicação isolada vale a construção de uma trajetória que já não conseguimos sustentar.

Hoje, produtividade acadêmica significa, para mim, muito menos fazer cada vez mais e muito mais construir continuidade. Ler com intenção, escrever com propósito, transformar boas perguntas em pesquisas que possam amadurecer, submeter sem transformar a rejeição em paralisia, escolher com critério e preservar alguma curiosidade para a pergunta seguinte. Não é uma fórmula, e certamente não é um manual. É apenas aquilo que a experiência, entre acertos, excessos, recusas, publicações e recomeços, tem me ensinado até aqui.

Talvez, no final, ser produtivo academicamente não seja produzir o máximo possível, mas conseguir continuar produzindo aquilo que ainda consideramos digno de ser pensado.

VIDA ACADÊMICA E PESQUISAVoltar à Ágora DEMOS ↗